Comprimido #142 - Casas desdentadas
O resumo de um bocado de semana.
Quarta.
Acordei de uma noite bem dormida. Ia trabalhar em casa, por isso tinha duas vantagens: ia começa a trabalhar mais cedo, depois de uma manhã mais devagar. Um podcast sobre livros a fazer companhia, um banho quente, café com leite, o cu de uma torrada. Já ia a meio da manhã quando fiz uma pausa e me deparei com a primeira notícia sobre o efeito do furacão em Leiria. Só aí percebi que houve muitos que não dormiram a noite toda, incluindo a minha família toda, com quem - descobria agora - não conseguia falar.
Quinta.
Uma da manhã. Ligo à minha irmã, a única da família com quem consigo falar e que está numa cadeira do corredor do hospital com uma impertinente crise de vesícula. A luz forte a bater nos olhos não a deixa dormir. Disseram-lhe que ia ficar para ser operada, depois que a iam mandar embora, mas ela não consegue falar com ninguém que a possa ir buscar - só comigo, a duas horas de caminho. À frente dela, para serem operadores, os que partiram mãos e pernas a arranjarem telhados. Ela está continua com dores, mas terá de voltar noutro dia.
Sexta.
É sexta feira de treze. Anos. De namoro. O jantar fora é trocado por indiano do Uber Eats no sofá. Ele a seguir vai ver futebol e eu os episódios de Bridgerton que me faltam, cada um com a sua droga televisiva que entorpeça a mente.
Sábado.
O caminho na A1 para Leiria é abençoado pelo sol. A luz dourada escancara a vista das árvores envergonhadas por terem sido quebradas pelo vento. As casas estão desdentadas, mas não faz mal, os habitantes também não querem sorrir. Há lonas a fazer de vidros de varandas e de janelas de carros e de bocados inteiros de casas. Água e luz ainda são luxos que só voltaram para alguns, enquanto a carne apodrece no frigorífico. Deixei água e mantimentos e pilhas e velas e livros. Trouxe um galo grande para o jantar de domingo - salvei-o de não ser comido. Fugi do escuro.
Domingo.
Fui votar antecipadamente na única opção possível. Chove outra vez. Avisa-se a população para fazerem mochilas com bens, para evitarem deslocações - e a população é avisada na televisão e nas redes sociais, meios a que as zonas mais afetadas não têm acesso. Podia rir-me disso, se as casas tivessem dentes. Estamos cheios de tragédia e agora vêm as cheias, não dão intervalo para comer pipocas a quem vai a meio do filme de terror. E as pipocas eram telhas a encontrar lugar. Boa noite, despede-se o telejornal.
Todas as segundas, às 8h, começa a tua semana com a medicação recomendada por médico nenhum. Um comprimido com efeito placebo, mas sem efeitos secundários.
Se conhecerem quem goste de tolices e reflexões inconsequentes, partilhem o comprimido!

