Sem dourar a pílula #4 - Processo de apagamento de identidade em curso
Porque as alterações físicas e psicológicas internas não chegam.
Ser chamada de mãe por uma mulher já criada e mais velha que eu, cujo grau de familiaridade comigo se resume a estar a atender-me numa loja, é, sob todos os aspetos: assustador.
E eu até percebo a senhora da loja, que é dedicada a maternidade e bebés, num sentido: ela atende tantas mães que é mais fácil do que saber-lhes o nome. É como os homens que chamam amor à esposa, para garantirem que nunca confundem o seu nome com o da amante.
Mas é pior.
Ainda há-de haver alguém que me explique porque é que uma colega de trabalho - uma qualquer, que nem tem grande afinidade comigo, - me vem falar de temas de trabalho, num canal oficial de trabalho, a tratar-me por mamã. E aqui não tenho como não me lembrar daquela anedota em que o menino diz “mamã, os meninos na escola dizem que eu sou diatraído” e ouve em resposta: “cala-te pá, não sou tua mãe”. Lembro-me porque é isso que (não tão) carinhosamente, me apetece responder.
Mas é pior ainda.
Porque noto a condescendência com que sou tratada. Eu, de quem dizem usualmente neste contexto laboral (num puro exercício de machismo mascarado de elogio) que tenho “mais testosterona do que muito homem”, vejo agora uma gentileza evitante. Um passar por cima dos assuntos, para não me apoquentarem. Um silêncio em vez de se dizer o que tem de ser dito, porque posso estar sensível. É como se um terço de mim já tivessem ido de licença, porque não posso cumprir a minha função inteiramente.
Pode parecer cuidado. Pode até ser cuidado. A mim chega-me como ofensivo. Parece que me encolhem porque escolhi este exercício da maternidade e que sou menos do que era há um bocadinho, com a mesma criança na barriga, mas antes de a saberem.
E se o objetivo era que não me irritassem, trago novidades: fico furiosa!
É uma daquelas coisas.
Quando me meti nisto - leia-se maternidade -, anos depois de quase todas as minhas amigas, já sabia muita coisa, ai, tanta coisa. Sabia com o que contar e, até mesmo, que, não obstante esse conhecimento em segunda barriga (mão é estranho), não fazia ideia com o que contar. Está é uma dessas: a identidade entra em crise muito mais rápida e desnecessariamente do que seria necessário. Obrigada, sociedade.
Todas as segundas, às 8h, começa a tua semana com a medicação recomendada por médico nenhum. Um comprimido com efeito placebo, mas sem efeitos secundários, ou uns pílula que não foi dourada sobre o novo mundo que estou a descobrir.
Se conhecerem quem goste de tolices e reflexões inconsequentes, partilhem!


É um processo que primeiro estranha-se, depois entranha-se. E quando finalmente se pensa que aliviou, melhorou ou lá o que queiram chamar e voltamos a ter direito ao nosso nome e identidade, aviso já, mesmo não querendo ser spoiler: vem a fase seguinte... a da avó... e começa tudo de novo! 😉🤦🏻♀️🤷🏻♀️😊
É que nem vale a pena tomar um comprimido para essa ralação! Deixa correr... a escrita!